HOMOSSEXUALIDADE E LOUCURA EM CAIO FERNANDO ABREU
Állex Leilla - UFBA
Este trabalho nasceu não somente da inquietação e dúvidas provocadas pela leitura dos textos de Caio Fernando Abreu, nos quais loucura e homoeroticidade estão, muitas vezes, entrelaçadas, mas também de questionamentos oriundos do contato com História da loucura na idade clássica, de Michel Foucault, e Notas para uma história de homotextualidades na literatura brasileira, de Denílson Lopes. Sendo Caio Fernando Abreu um escritor emblemático de sua geração, ou seja, um dos escritores brasileiros nascidos no seio de uma revolução cultural e sexual, que traz tal revolução ou os anseios, fantasmas e conflitos dela para o centro de suas narrativas, uma das questões que brotam da análise do tratamento dado por ele aos temas da loucura e homossexualidade está diretamente ligada à necessidade de saber seos personagens homossexuais de Caio Fernando Abreu fazem da experiência trágica da loucura uma afirmação de suas subjetividades, emergindo da rede de relações de troca e dos valores de troca da realidade da sociedade burguesa, e entrando numa outra dimensão de existência[1], dimensão essa que, num primeiro momento, poderia os deixar isolados, à margem da sociedade, mas que, em seguida, funcionaria como um deslocamento de tal sistema, isto é, uma forma ou alternativa para se viver a diferença, dando vez e voz aos desejos que não fazem parte do processo de vivência “oficial”.
Esse penetrar numa outra dimensão subjetiva, que funciona como um espaço de vivência alternativa para os desejos recalcados do sujeito ou ainda aqueles desejos/verdades dos quais ele não quer/pode abrir mão, é visível em quase todos os textos de Caio Fernando Abreu, e confunde-se com a noção do próprio autor para o ato/necessidade da escrita: escrever é um defeito de fabricação, como que uma impossibilidade de viver a vida sem inventar em cima dela[2]. Se escrever para ele estava diretamente ligado ao reconhecimento de que a realidade tal como lhe era apresentada possuía defeito - daí a necessidade de ajustá-la via criação -, seus personagens também se movimentam dentro dessa urgência de inventar novos espaços e formas de emersão,desajustando o mecanismo de recalque existente no meio onde vivem e com o qual se embatem, vivenciando as dores e prazeres produzidas no terreno onde a luta entre força individual e forças coletivas se faz.
Assim, ser louco e, ao mesmo tempo, ser gay, nos contos de Caio Fernando Abreu, representa uma resistência duplamente vivida: primeiro contra a inserção do “eu” no jogo de racionalidade e sensibilidade dominantes; segundo, contra a intervenção e normatização do desejo e vivência sexual do indivíduo. Por isso, a condição de duas vezes excluído de seus personagens é a afirmação ambivalente dessa resistência, que precisa questionar e transgredir o conceito de razão - revelando o outro lado ou desordenando a lógica estabelecida -, bem como romper com os mecanismos de poder dos modelos heterossexuais - trazendo à tona, à página, não só a complexidade e problemática das relações homossexuais, mas, também, a diversidade de tais relações, rompendo com o estereótipo do comportamentos opositivo binário (homem/mulher, ativo/passivo) estabelecido pela transposição dos arquétipos masculino/feminino de estruturação heterossexual da cultura para o universo gay.
Um dos contos que mais explicitam essa dupla luta é Uma estória de borboletas, do livro Pedras de Calcutá (1977) - conto que representa uma rescrita de Carta a uma Senhorita em Paris, de Julio Cortázar (Bestiário, 1970) e narra a história de um casal de homossexuais que enlouquece, pouco a pouco, a partir do momento em que algo inusitado e mágico lhe ocorre: os dois passam a gerar borboletas no centro de suas cabeças.
O conto de Caio Fernando Abreu abre para um leque de questões não discutidas por Julio Cortázar: a loucura como forma de diferença de duas subjetividades, a loucura como portadora de um outro saber, a repressão sofrida pelos sujeitos diante das forças homogenizadoras da sociedade, e sua conseqüente exclusão ou marginalização, culminando com a punição via hospício/psiquiatria. Atrelado a tudo isso, também está a questão da homossexualidade dos personagens, com amplo destaque para a representação minuciosa do cotidiano da relação. Segundo Silviano Santiago, essa é uma tendência diferenciadora nos textos que trabalham com o homoerotismo: Passado e história são coisas que só interessam aos heterossexuais. Bicha acredita é no cotidiano, e é nele que planta os pés como se fosse uma árvore. [3] Ou seja, na opção pela transparência das relações e a explicitação das afetividades, de todo um cotidiano partilhado e vivido a dois, está a necessidade de construir uma rede de significados que as histórias mais tradicionais deixaram para trás, esse recurso/necessidade é recorrente não só na literatura de autores que trabalham com a temática gay, como também nos textos que tratam de questões de outras minorias (como a literatura escrita por mulheres, por negros etc.).
Nos contos de Caio Fernando Abreu, a luta dos sujeitos versus as pressões sociais traz consigo dois entrelaçamentos significativos: o desatino que faz emergir uma sabedoria, rechaçada e ocultada pela razão, e a experiênciação e isolamento de uma sexualidade não aceita pelos padrões sociais.
O entrelaçamento de loucura e sabedoria remete para um período, segundo Michel Foucault, entre o final do século XIV e início do século XV, quando a loucura fascina porque é um saber. Porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico. Para ele, a loucura era vista como algo que revelava a irreparável fragilidade das relações de dependência, a queda imediata da razão no possuir onde ela procura seu ser: a razão se aliena no próprio movimento em que toma posse do desatino.
Foucault vê nesse movimento da compreensão sobre a loucura a chave para entender como na modernidade as artes e as leituras, em geral, fazem a loucura andar no mundo, só que não mais pelo seu poder de se comunicar com o obscuro (como era vista no início da Idade Média), mas simplesmente por ser cega: seu poder é feito apenas de erro. Só que esse erro, ainda segundo Foucault, é trazido à luz do dia, transformado em exaltação de um acaso (o de ser louco), o que também transforma a loucura na verdade da verdade.
Entretanto, nos textos de Caio Fernando Abreu, o movimento não é só em torno de fazer a loucura falar, mas consiste, também, numa forma de inversão do próprio conceito de razão, uma vez que explicita valores e saberes expulsos do espaço dominado por ela, além de fazer emergir a condição homossexual dos personagens. Assim, o nascimento das borboletas (ou o poder de fazê-las nascer), primeiro em André, depois no outro personagem – narrador-anônimo e parceiro de André – é atribuído a uma nova forma de ver/sentir o mundo, um conhecer por trás das máscaras dos sujeitos e invólucros dos objetos, um tipo de “evolução” ou crescimento do indivíduo que passa a enxergar tudo à sua volta com outros olhos, ou melhor, de uma maneira especial, diferente:
Quis conversar com alguém, mas me afastara tanto de todos depois que André enlouquecera, e aquele olhar dele estava me rasgando por dentro, eu tinha a impressão que o meu próprio olhar tinha se tornado como o dele, e de repente já não era apenas impressão: quando percebi, estava olhando para as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmas sabiam. Ou então como se as traspassasse. Eram bichos brancos e sujos. [ABREU: 1977, 94]
O processo de gerar borboletas entre os fios dos cabelos, apanhá-las e soltá-las na sacada do apartamento, constitui um aprendizado: primeiro acontece com André, que se isola dos outros e do próprio parceiro, e dentro desse isolamento passa a perceber o nascer e o borbulhar das borboletas no centro da cabeça, fato ou delírio que lhe coloca dentro de outra dimensão da existência. Em seguida, após o internamento de André, é o outro, o amante, quem desenvolverá o mesmo processo. Aqui, isolar e não se comunicar é, ao mesmo tempo, voltar a uma subjetividade que contém uma verdade interior, e, também é, no momento em que os personagens vivenciam o delírio provocando uma reação no meio, uma forma de discutir a saída do isolamento, o que, segundo Denílson Lopes, é um fato extremamente relevante na medida em que movimentos gays querem atuar no conjunto da esfera pública, sem apagar suas especificidades e discutir a importância de suas problemáticas fora de espaços guetizados[4].
Por isso é que o processo de descoberta de uma verdade interior não pode ser escondido e vivido apenas dentro das paredes do apartamento do casal - porque o saber revelado por quem o experimentou não se contém, explode, sai de sua interioridade e chama a atenção alheia na sua ânsia de modificação. Assim, quando o parceiro de André o interna e retorna para casa, seu percurso pela cidade já vem marcado pela nova percepção que ele adquire: olhar as pessoas e traspassá-las, enxergar onde e o quê elas próprias não conseguiriam enxergar. Tal percepção vai-se se acentuando até o surgimento das borboletas, e, novamente, tal acontecimento é acompanhado do isolamento do personagem, de crises violentas, da reação dos vizinhos e, por fim, do internamento do personagem, que volta a estar lado a lado com o companheiro, no hospício.
Se o isolamento é, a princípio, uma saída pelas “margens” da sociedade, ou seja, é somente através dele que os sujeitos conseguem expandir sua afetividade, construindo um universo para suas trocas e partilhas, o sair do isolamento representa uma busca de dupla visibilidade, e marca o retorno do delírio, da experiência trágica ao espaço da cultura, bem como a emergência da condição homossexual dos personagens, instaurando uma quebra no espaço heterossexual homogenizador das relações sexuais. Ou seja, em Caio Fernando Abreu, o delírio visual e sensorial dos personagens fundido à questão de sua condição sexual é uma alucinação que afirma a subjetividade e diferença dos sujeitos na eterna luta dentro do abismo do mundo individual versus o mundo organizado, concreto. Além disso, o delírio que era apenas de um, passa a operar no outro, a partir da experiênciação vivida dentro do apartamento do casal. Loucura partilhada, saberes trocados.
O final do conto traz de forma evidente a natureza dessa luta, e responde à pergunta inicial sobre a afirmação ou não de uma subjetividade que deslocaria um sistema de valores estabelecido e opositivo às tendências originais dos indivíduos: os personagens, mesmo presos num hospício, contidos numa camisa-de-força, terminam irmanados, sorriem um para o outro, quando vêem novas borboletas – desta vez tão vermelhas que pareciam sangrar[5] – surgindo em suas cabeças. Ou seja, são vítimas de uma repressão que os coloca, num primeiro momento, num gueto particular (o próprio apartamento onde vivem isolados de todos, até mesmo dos vizinhos), mas, num segundo momento, são também seres dotados de um desejo vitorioso de emersão, deluta para sair de sua interioridade, revelando a verdade/saber que o mergulho/delírio lhe proporcionou, e, assim, serem sujeitos, eles mesmos, da sua própria história, de sua afetividade, de seus sofrimentos e seus prazeres.
Referências Bibliográficas:
ABREU, Caio Fernando. Pedras de Calcutá. São Paulo: Alfa-Omega. 1977. 124 p.
_____. Entrevista. REVISTA AUTORES GAÚCHOS, n° 06. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro. 1988. 27 p.
CORTÁZAR, Julio. Bestiário. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. 1970. 130 p.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. Trad. José Teixeira Coelho Netto. 3. ed. Coleção Estudos. São Paulo: Perspectiva. 1993.551 p.
LOPES, Denílson. Notas para uma história de homotextualidades na literatura brasileira. (texto ainda inédito, a ser integrado numa coletânea de ensaios sobre o homoerotismo, organizada por Ítalo Moriconi).
PEREIRA-FRAYZE, João. A determinação histórica da loucura. In: O que é loucura. 3. ed. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Abril/Brasiliense. 1984. 107 p.
[1] João PEREIRA-FRAYZE. O que é loucura. 21 p.
[2] Caio FERNANDO ABREU. Entrevista a Cadernos Autores Gaúchos. P. 10.
[3] Silviano SANTIAGO. Stella Manhattan. p. 46.
[4] Denílson LOPES. Notas para uma história de homotextualidades na literatura brasileira. p.32.
[5] Caio Fernando ABREU. Pedras de Calcutá. p. 98.